Note a ponte ao lado. Onde está o chefe ? Quem é o engenheiro ?

Sob um ponto de vista sistêmico, observamos a emergência de uma nova estrutura (a ponte), a partir da interação entre as partes (as formigas).

O fenômeno da autoorganização manifesta-se naturalmente, em vários tipos de sistemas e escalas: um redemoinho na pia, uma ponte de formigas,  o giro de cãezinhos em torno da tigela de leite,  o desenvolvimento embrionário do seu corpo, a regeneração de um pedaço de floresta ou uma revolução política.

Ora, se a autoorganização é tão presente e tão poderosa, por que tão frequentemente reclamamos da "falta de organização" nas nossas comunidades-iniciativas ? De que modo podemos aproveitar a tendencia da emergencia autoorganizada de estruturas, natural nos sistemas complexos, em nossas comunidades-iniciativas ? Em outras palavras, é possível ""cultivar" a auto-organização ? 

Argumento que sim.

( O texto continua após os vídeos abaixo )

Autoorganização pode ser definida como a emergência ("surgimento") de estruturas, funções ou processos sem comando ou coordenação centralizadas (a partir de um coordenador, chefe ou líder). Cabe notar que ela é um fenômeno próprio de sistemas altamente complexos (ver Comunidades-iniciativas como sistemas complexos).

As estruturas e funções nestes sistemas complexos (organismos, solo e clima num ecossistema, empresas e consumidores num sistema econômico, a ponte das formigas) somente são possíveis se este sistema "importa" e utiliza energia e materiais do meio externo: não é possível criar estrutura ou função "do nada".  Os fenômenos de autoorganização emergem em resposta a esta necessidade do sistema capturar e utilizar energia do meio externo.

Se nossas comunidades-iniciativas são um sistema complexo, necessariamente precisam de recursos externos para funcionar, e espontaneamente existe a tendência dos membros auto-organizarem-se para manter e ampliar a estruturas de captação e processamento de recursos produzindo serviços e benefícios para os sistemas externos.

Você tem observado fenômenos autorganizados na sua comunidade-iniciativa ? Se sim, conte para nós.  Se não, talvez voce não tenha olhado direito, ou talvez sua comunidade-iniciativa não seja um sistema complexo...


( VER A INDICAÇÃO DE TRES VIDEOS DE APROFUNDAMENTO COMO UMA DAS RESPOSTAS A ESTE FORUM, MAIS ABAIXO NA PÁGINA )

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Bom dia!

Pergunta difícil!

Sobre a comunidade-iniciativa projeto 'Caminhos Coletivos', sinceramente não sei dizer. É um esforço maior da equipe que realiza do que dos participantes...

Agora, a Cooperativa em si, passa por períodos ruins de convivência, mais sérios problemas de reciclagem e coleta na cidade em que está localizada. Pode ser que se auto-organizem e mal...ou que tenha a ação da líder com uma turma e da presidente oficial com outra turma. Os problemas pioram a cada dia. Não sei dizer realmente o que ocorre...

Oi Carolina ! 

Grato por trazer seu exemplo para a conversa ! 

Compreendo sua dificuldade em enxergar a autoorganiação acontecendo no projeto, talvez  o 'Caminhos coletivos" ainda não tenha se constituído enquanto um sistema complexo próprio.

As fronteiras das nossas comunidades iniciativas se constituem pela interação entre os participantes, pela visão-imagem de futuro que compartilham e por processos que acontecem. Talvez o projeto ainda seja apenas a sobreposição de parte da ONG com parte da Cooperativa, ou seja, ainda não se desenvolveram interações, processos e uma visão de futuro mais ou menos comum entre as pessoas que compoe o "caminhos" propriamente dito ( equipe, que é subconjunto da ong, e participantes, que é um subconjunto da iniciativa.

A organização que propoe o projeto, no caso a EC, com certeza exibirá processos autoorganizados à medida que executa os recursos captados: voce e sua equipe, apesar das designações formais dadas pelos contratos de voces, tem uma dinamica propria de trabalho que muitas vezes vai alem do formal.   Na cooperativa, entre os cooperados há processos auto-organizados tambem: eles vao se organizando, para desempenhar as funções da cooperativa, de acordo com as motivações e capacidades de cada um, para além da função formal deles.

O que acontece é que muuuitas vezes as estruturas formais inibem os processos auto-organizados, ou dificultam que a gente os identifque e cultive eles. Ficamos tentando implementar uma estrutura inventada em vez de alimentar o que acontece.

Então, nesta nossa reflexão, deixo uma nova provocação: olhe de perto, com cuidado, tanto a ong, quanto a cooperativa, quanto o sistema comunidade iniciativa, tentando identificar se algum processo auto-organizado começou a acontecer e foi inibido.  Exemplos destes processos autoorganizados podem ser ideias paralelas que surgem e vão sendo desenvolvidas por parte do grupo, alguma combinação entre pequenos grupos de participantes para realizar uma tarefa ( por exemplo combinar quem leva o que em um picnic). ideias de mudanças no estatuto ou regimento do grupo, etc.

Note que todo processo autoorganizado em um sistema complexo ocorre a partir de alguma "tensão" criativa: os cachorrinhos querem o leite e estão apertados, a ong recebe os recursos e tem que executar, ou os cooperados querem gerar renda e estáo ligados a cooperativa.

Aí depois o convite é para quabramos a cabeça juntos para imaginar formas de cultivar estes fenomenos autoorganizados e a autoorganização em si. 

Em relação aos fenômenos auto-organizados a melhor estratégia é não intervir, senão deixam de ser auto organizados. Configurar ambientes de interação livre  e de abundância em relação aos recursos materiais e imateriais me parece a melhor maneira de nutrir situações de auto-organização. É preciso tempo de experimentação entre as pessoas. Lembrar também das forças de conservação dos sistemas, que garante sua  permanência no tempo e identidade.

No caso da auto-organização entra em avaliação (ou crise) o papel de facilitadores, que são por natureza interventores em processos. 

Uma experiência muito interessante que conheci, por meio de palestra é a da Rede As one, criada  a partir da eco-comunidade que existe em Suzuka , no Japão. http://as-one.main.jp/suzuka/Brasil/network.html.

Certo, Vivianne!

Acredito que no caso, é não intervirmos nos problemas da Cooperativa (melhor, entre os Cooperados (as)) de forma direta.

Dei uma olhada na página da Rede As One e não encontrei aonde ficam aqui no Brasil....Adorei as diretrizes deles, bem humanas.

Oi carolina, penso que a situação da cooperativa  é bem complexa e hierárquica, com indução de processo externos, como o projeto de vocês.  Não sei que tipo de vinculo mais duradouro vocês tem intenção de ter com a cooperativa, falo em relação à ong em que trabalha.  Se não tem intenção de ter um vínculo mais duradouro é melhor não intervir nos processos internos de disputa de poder. falo duradouro e não forte, porque precisa tempo para construir mudanças com as pessoas. Tipo 2, 3 anos no mínimo.

abraço

Oi,
Infelizmente após o aporte financeiro acabar, fica impossível continuar na Cooperativa, exceto participar de algo pontual, exemplo: uma ação.
Enviaremos novo projeto para edital, com outro público-alvo, mas a Cooperativa estará na jogada de outra forma.

Vivi concordo com o que diz: " Configurar ambientes de interação livre e de abundância em relação aos recursos materiais e imateriais me parece a melhor maneira de nutrir situações de auto-organização. É preciso tempo de experimentação entre as pessoas. Lembrar também das forças de conservação dos sistemas, que garante sua permanência no tempo e identidade."

Imaginei que uma das facetas que contribuem para estas "forças de conservação dos sistemas" pode ser a disposição dos participantes em interagir, ou seja, a sua motivação, disponibilidade e confiança que estabelecem entre si. Uma outra pode estar ligada às fronteiras do sistema: se os participantes se percebem parte de um todo, e se a partir da confiança e de uma visão de futuro interessante se engajam em interação, fenomenos auto-organizados podem prosperar, caso ninguém atrapalhe, como sugeriu Carolina para o caso dela.

Nas nossas comunidades-iniciativas existiria algum análogo do leite para os cachorrinhos, ou da decisão de seguir para alguma direção, como no caso das formigas ? Quais seriam tensões criativas possíveis para a auto-organização ? Vivi, lembra-se da autoorganização da equipe no projeto da Ouvidoria do Mar, talvez ali a "tensão criativa" estava sendo alimentada pela possibildiade de fazermos algo interessante, que todos entreviam, e da disponibilidade de recurso financeiro, ainda que de pequeno volume.

Penso que a emergência, e mesmo as ações planejadas antes da interação, nascem de algum tipo de necessidade adaptativa do organismo ou de um sistema de organismos.

Em relação às forças conservadoras presentes nos fenômenos, a ideia de um comum a todos, algo comum entre todos, um bem comum, interesses além do benefício imediato individual,  é uma grande força conservadora. Não alio a expressão conservador a conceitos negativos. Não uso aqui na acepção de tipo de linha política de atuação.Estou me referindo às forças  estruturais dos fenômenos, incluindo um imaginário comum. Por exemplo: todo as amanhã  acordamos com dedos, olhos, dentes, órgãos no mesmo lugar e os sistemas corpóreos e psíquicos  cumprindo os ciclos cicardianos diários. São condições estruturais de conservação do organismo que garantem sua existência no tempo/espaço.  Ao mesmo tempo, ficamos todos os dias mais velhos, as emergências da vida nos desgastam, provocam alterações, nós afetam etc. . As dinâmicas emergentes e conservadoras fazem parte do metabolismo da vida. 

Sim Rafael, ali foi uma configuração especial. havia um pouco de dinheiro e engajamento. Apesar da maioria da equipe não se conhecer presencialmente,  as tarefas  que tínhamos que desenvolver criaram um comum entre nós. Quando você foi para campo e ficamos sozinhos, acredito que minha experiência em processos  mais abertos e colaborativos ajudou a criamos dinâmicas de trabalho que possibilitaram  realizarmos tudo  o que era preciso e impediu que ficássemos patinando.Tínhamos uma equipe pequena, mas potente e habilitada. O relatório final revela bem a dinâmica inclusiva e democrática do trabalho:  cada um de nós fez uma abordagem em metodologia diferente. O relatório ficou muito rico ao não escolhermos apenas uma metodologia  para análise do diagnóstico. Foi uma experiência muito boa e feliz.

Nossa, lendo novamente minha resposta, pareceu tão negativa, credooo, kkkk

O projeto em si acontece e quero acreditar que plante sementinhas se não em todas as cabeças e corações dos participantes, em alguns (a Educação Ambiental não traz resultados a curto prazo....difícil).
A situação entre a empresa que financia a Cooperativa e a prefeitura parece estar entrando nos eixos...ao menos até o final do projeto.
Recebemos a visita da patrocinadora na Cooperativa esses dias e elogiaram muito o processo. A mesma tem maiores interesses no impacto que a Cooperativa como um todo causa na cidade na coleta e destinação para reciclagem da cidade.

Haverá, acredito que em agosto, nova eleição para escolha do (a) presidente e estão tendo reuniões com Promotoria (Fórum da cidade) para ajustes de seus trabalhos junto à prefeitura e empresa que gerencia as cooperativas.

A comunidade iniciativa foi bloqueada por alguém (aparentemente a presidente que não participa).

Carolina, esses projetos sempre deixam sementes. Mesmo sendo breves intervenções, podem representar  uma oportunidade muito grande para algumas pessoas verem a vida, a si próprio e o mundo de outro lugar, com outras informações.

Sem dúvidas! Sementinhas foram plantadas em algumas pessoas!

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